Inclusão, aprovar ou reprovar? Quais os Parâmetros…?

24 03 2011

INCLUSÃO, APROVAR OU REPROVAR? QUAIS OS PARÂMETROS…

 

 

Um dos grandes conflitos que vêm acompanhando o processo da inclusão escolar de

crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEEs), é o da promoção. A

criança pode ser aprovada, passar para a série seguinte, sem ter aprendido tudo

o que foi ensinado? Ou tudo o que se pretendia que aprendesse? Ela pode ir

adiante sem ter atingido aquelas aprendizagens consideradas básicas no percurso

acadêmico regular, que vão variar nas diferentes séries, tais como alfabetização

e conceitos lógico-matemáticos? Ela pode seguir com uma turma que tem outro

nível de funcionamento, que está em outro patamar de aprendizagem? Mantendo o

olhar da padronização e da impossível homogeneidade que por muito tempo regeu a

escola, ficaria claro que as crianças que não atingissem determinados objetivos,

não poderiam ser aprovadas.Porém, o enfoque inclusivo veio modificar esta forma

determinista e quantitativa de definir aprendizagens e estabelecer os parâmetros

para os avanços. A análise sobre a aprovação ou reprovação de uma criança com

Síndrome de Down (ou com qualquer outra dificuldade de aprendizagem ou

deficiência) exige uma ótica qualitativa, um levantamento dos progressos do

aluno utilizando novos critérios, personalizando ensino e avaliação e empregando

parâmetros coerentes com o pensamento inclusivo.

 

E que critérios são esses? O que pode e deve ser analisado antes de decidir se

uma criança passa de ano ou não? Quando falamos de inclusão, nota e rendimento

não bastam, é necessário que outros parâmetros entrem em questão (análise esta

que deveria ser comum para todas as crianças).

 

– na aprendizagem: a criança aprendeu alguma coisa? A resposta a esta pergunta

tem várias implicações, sendo a mais simples, caso o aluno tenha evoluído pouco

ou quase nada durante o ano letivo, a reprovação sumária. Porém, chegar ao final

do ano com um aluno que não aprendeu nada e atribuir apenas a ele e a sua

síndrome essa responsabilidade, incorre no risco de repetir erros, perpetuar

atitudes de exclusão, pois muitas vezes é a abordagem da escola que não surte

efeitos positivos sobre a criança. Inclusão e aprendizagem significam que a

criança está presente, está participando e está adquirindo conteúdos.

 

Toda criança pode aprender, toda criança parte de um patamar inicial e atinge

outro, cresce e se desenvolve. A socialização, padrões de condutas

comportamentais, regras sociais, certamente fazem parte das aquisições de um

aluno na escola, mas não podem ser as únicas. A criança precisa aprender,

progredir em outras áreas também, como na linguagem, nos aspectos cognitivos,

psicomotores e emocionais. Ou seja, ela pode, além dos conteúdos curriculares,

mais frequentemente submetidos a avaliações, se desenvolver nos aspectos menos

formais do ensino regular, mas que contam muito no crescimento da criança

incluída: ela pode aprender a trabalhar em grupo, a respeitar regras, a

permanecer em uma atividade por tempo cada vez maior, a reter informações, pode

aumentar seu vocabulário, melhorar sua preensão do lápis, ou aprender a esperar

sua vez no jogo. Parecem aprendizagens simples que podem passar despercebidas ou

pouco valorizadas no âmbito escolar que não tiver sensibilidade suficiente para

rever seus critérios de esforço e sucesso. Reter a criança na mesma série,

portanto, em nome de um “amadurecimento” ou maior tempo para aprender, sem

profundas modificações no que e como lhe foi ensinado e que querem que repita, é

atitude irresponsável.

 

Todas as crianças podem aprender, o aproveitamento escolar é individual, cada um

se beneficia de alguma forma de uma aprendizagem. Na análise qualitativa e

quantitativa da aquisição de conhecimentos de uma criança com NNEs, incorporando

aspectos informais, entrevistas, observações, valorizando o processo e não

apenas os resultados, adequando as avaliações ao processo ensino-aprendizagem e

possibilitando formas diversas de expressão do aprendido, vamos verificar que

aquisições ocorrem, que ela aprende.

 

Todas as crianças merecem ser avaliadas levando-se em conta suas características

pessoais de tempo e estilo de aprendizagem, seus conhecimentos prévios e

necessidades especiais e, partindo disso, merecem o estabelecimento de um

programa que respeite estes aspectos. Se o programa traçado para aquela criança

não surte o efeito desejado e esperado, o problema está no programa, e não na

criança. A escola precisa constantemente se reavaliar, se reorganizar e

redefinir objetivos e estratégias, oferecer alternativas de expressão, buscando

interesse e motivação para a aprendizagem, tanto de todos os aluno quanto da

professora.

 

E caso ela tenha aprendido um pouco? Não aprendeu o mesmo que os colegas, mas

aprendeu? É nesse momento que outros critérios devem ser analisados.- o

relacionamento professor/aluno: a compatibilidade entre professor e aluno ajuda

e enriquece o desenvolvimento, pois a motivação de um motiva o outro. Inclusão é

processo novo, desequilibra, transforma. Alguns professores se fortalecem,

descobrem dentro de si mesmos uma capacidade de ensinar, seja a quem for. Outros

se conscientizam de suas fraquezas, e podem ser dominados pelo desânimo, que vai

refletir no aprendizado da criança. A professora que, estimulada, estimula seu

aluno, é um dado a ser observado. Às vezes o vinculo formado entre a professora

e o aluno pode ser tão forte que escola e/ou família se vêem tentados a manter a

criança com aquela professora por mais um ano, para evitar novas dificuldades.

 

Não é ideal para a inclusão nem a professora que super-protege o aluno, nem a

que subestima suas capacidades, e nem aquela que trabalha pela sua

“normalidade”, esperando da criança que ela alcance os colegas. Cada criança com

SD terá suas habilidades e dificuldades, e sua aprendizagem, respeitando seus

limites, deve ser esperada e exigida. Se a professora busca alcançar com o aluno

o nível de aprendizagem do resto da turma, terá como resultado uma frustração

generalizada, tanto da criança, quanto dos pais e dela própria. É importante,

portanto, que a professora olhe para seu aluno com SD vendo além do que ele

mostra, para poder vê-lo como mais um aluno, ao qual ela vai se adaptar para

conseguir atingir com ele seu máximo potencial (que pode ser diferente dos

colegas, mas é o seu potencial. Ao invés do olhar exigente, que vê as

dificuldades, os problemas a serem enfrentados, lançar ao aluno um olhar

desafiador, que acredita, que investe no potencial e nas habilidades, e sente

orgulho a cada pequena conquista. A escola atua exigindo da criança aquilo que

estiver dentro de seu campo de possibilidades, expandindo-o.

 

– o relacionamento com os colegas: Ambientes heterogêneos fazem crescer. Uma das

grandes forças da inclusão é oportunizar a todas as crianças a convivência com

as diferenças, aprendendo a respeitar as dificuldades e ritmos de aprendizagem

de colegas com vários níveis de funcionamento. Este processo também é

aprendizagem, também demanda adaptações, exige que a professora desenvolva este

respeito no grupo, que valorize a diversidade e a ajuda mútua, identificando e

superando obstáculos que possam surgir. Com o passar do tempo, a turma da

criança com SD a conhece bem, sabe como ajudá-la, quando motivá-la a fazer

sozinha, entende seu modo de se comunicar. Ou não.

 

Pode acontecer de a criança estar em uma turma que não soube acolhê-la, não a

recebeu adequadamente, não a incluiu nas brincadeiras e festas, podendo ser pela

não-interferência da professora, ou por um funcionamento próprio do grupo. E

mesmo a turma que recebe bem e é adequada, deve ser observada para que se

verifique se não ocorre uma super-proteção e infantilização do colega com SD.

Nestes casos, a turma e sua professora precisam rever conceitos, passar por uma

reformulação, em que se privilegie o senso de colaboração mútua.

 

– nível de autonomia: tão importante quanto o desenvolvimento cognitivo, é a

capacidade da criança de ser autônoma, de ser independente nas atividades de

vida diária e de cuidar de suas coisas, aspectos que devem ser trabalhados e

valorizados em casa e na escola. O nível de autonomia deve ser suficiente para

que a criança não seja dependente de seus colegas e professora nos aspectos

básicos do dia-a-dia.

 

– linguagem: a criança com NEEs pode não entender tudo o que lhe é dito, e pode

não se expressar muito bem. O importante é que compreenda as emissões feitas de

forma adequada para ela, e que se faça entender, mesmo que não através da fala.

O modo como a criança está se comunicando é fator a ser considerado na decisão

final, levando sempre em conta que a convivência da criança com SD com outras

crianças sem dificuldades comunicativas faz com que se beneficiem com a

experiência com padrões de fala mais evoluídos, e não mais atrasados do que os

delas.

 

– idade dos colegas: como bem se sabe a criança com SD pode apresentar atraso no

seu desenvolvimento cognitivo e lingüístico. Porém, seu desenvolvimento físico,

fisiológico e social são coerentes com sua idade cronológica. Grandes diferenças

de idades e tamanhos entre as crianças podem comprometer os relacionamentos, e

os focos de interesse demasiadamente divergentes podem dificultar a formação de

vínculos e compatibilidades.

 

– comportamento da criança: distúrbios da conduta, comportamentos evitativos

como fugas da sala de aula, agressividade, incomodar os colegas ou negar-se a

fazer atividades, são sinais bastante claros de que algo não vai bem. Muitas

vezes, comportamentos inadequados podem ser a forma mais eficiente de

comunicação e inter-relação que a criança consegue estabelecer. É importante que

se avalie onde está a causa destes comportamentos: na dificuldade em relação à

aprendizagem, no relacionamento com os colegas, nas tarefas diferenciadas, na

atenção obtida, na conscientização da deficiência. Definindo o elemento gerador

do conflito, o professor pode direcionar mais adequadamente sua decisão sobre a

permanência ou não daquele aluno naquela série, além de procurar a superação da

causa detectada ou não reforçar o comportamento negativo.

 

– demanda da família: cada família tem uma expectativa em relação ao seu filho e

à inclusão. Algumas famílias preferem que a criança permaneça mais tempo em uma

mesma série para alcançar aprendizagens. Outras valorizam mais o vínculo com os

colegas. Outras depositam tamanha confiança e afeto em determinada professora,

que preferem que o filho permaneça com ela por mais um ano. A família deve ser

ouvida e seus anseios analisados como mais uma variável desta equação.

 

– conceitos básicos: e o que fazer quando aquisições consideradas tão

fundamentais quanto a alfabetização e conceitos lógico-matemáticos tais como

noções de quantidades e operações básicas não tiverem acontecido ainda? No que

se refere à alfabetização, devem se buscar alternativas da escrita e leitura,

adaptando-se as formas de registrar conteúdos, de expressão gráfica através de

desenhos ou colagens, da aceitação das respostas orais enquanto a palavra

escrita ainda não estiver disponível. Alfabetização é importante, mas não é

tudo. Há outros canais para aprender e para demonstrar o que foi aprendido. O

percurso da aprendizagem de crianças com SD é longo e sem limites além daqueles

estabelecidos pelos adultos. A grande maioria das pessoas com SD aprende a ler e

escrever em diferentes fases, alguns bem pequenos, outros mais próximos da

adolescência. Portanto, não podemos desistir por achar que a alfabetização não

ocorrerá, mas também não devemos reter o aluno indefinidamente numa série

esperando que esta alfabetização aconteça.

 

Em relação à Matemática, é preciso considerar e explorar o fato de que a criança

vive os conceitos matemáticos desde bem pequena, quando separa carrinhos ou

seleciona roupas de boneca, quando divide figurinhas ou fala da posição das

coisas, quando classifica objetos ou põe a mesa. Observar e valorizar como estes

conceitos são organizados e aplicados no dia a dia serão referências importantes

em sua aprendizagem.

 

– aspecto legal: toda criança tem direito de acesso, direito de permanência e

direito de progresso dentro da escola. Não há como reter um aluno

indefinidamente em uma série.

 

– auto-determinação: “nada por nós, sem nós”. A criança pode ter sua

aprendizagem como um projeto de vida seu, e não apenas de seus pais e

professores. Ela precisa ser ouvida, estimulada para investir em si mesma, para

adquirir habilidades e fazer escolhas. Se a criança não parece ter entendido a

importância da aprendizagem em seu desenvolvimento, ela tem uma lacuna de base a

ser preenchida.

 

– o efeito emocional: reter uma criança que está em movimento, que está se

desenvolvendo (mesmo que pouco), que está se esforçando dentro de seus limites,

integrada e dedicada, pode funcionar como um freio, trazendo uma mensagem de que

não vai dar conta, de que não é suficiente. O resultado é a desmotivação, pois a

criança percebe que seu empenho não é valorizado.

 

Quando a reprovação é necessária, sendo considerada importante para o

amadurecimento e crescimento da criança, deve-se deixar claro para todos, pais,

aluno e para o próprio professor, que reprovar não é punição nem fracasso.

 

Uma reprovação só deverá ser considerada quando for uma medida que tem como

objetivo atender às necessidades da criança e não de fugir das dificuldades da

escola.A decisão sobre aprovar ou reprovar uma criança com necessidades

educativas especiais incluída em classe regular deve ser resultado de profunda

análise, em que se pesem todos os dados levantados, associados ao bom-senso da

escola e ao consenso dos pais e profissionais envolvidos. Como em tudo que se

refere à aprendizagem e à inclusão, não existe uma verdade única, nem uma

fórmula que defina esta decisão. O que deve existir é o respeito à criança,

resultado de um conhecimento profundo e individualizado de suas habilidades,

potenciais e necessidades específicas.

 

Fonte: http://www.reviverdown.org.br/


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